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Houve um tempo em que registrar uma fotografia significava esperar para descobrir o resultado, assistir a um filme dependia de encontrar uma fita disponível e uma ligação telefônica acontecia a partir de um aparelho fixo. Para quem viveu os anos 1990, eram situações comuns. Para quem nasceu depois, podem parecer detalhes de uma época distante.
A transformação tecnológica das últimas décadas foi rápida. No Brasil, a telefonia fixa ainda tinha papel importante nos anos 1990, enquanto a expansão dos celulares e da internet modificaria profundamente a maneira de se comunicar. Em 1997, o país tinha cerca de 17 milhões de telefones fixos e 4,5 milhões de acessos de telefonia móvel, segundo dados históricos divulgados pela Anatel.
A nostalgia, portanto, não está apenas nos objetos antigos. Ela também está na maneira como as pessoas organizavam o tempo, combinavam encontros, ouviam música, assistiam a filmes e guardavam lembranças.
Para Planaltina, cidade cuja história atravessa gerações, recordar essas mudanças ajuda a preservar outra dimensão da memória: a do cotidiano.

Dos filmes em VHS às fitas cassete, passando pelo telefone fixo e pelas fotografias em filme, uma viagem por hábitos que ajudam a entender como o cotidiano mudou em poucas décadas.
Quando fotografar exigia paciência
Antes da fotografia digital se tornar dominante, muitas câmeras utilizavam filmes fotográficos. Não havia uma tela para conferir imediatamente a imagem nem a possibilidade de apagar uma fotografia e tentar novamente. Cada clique precisava ser pensado.
O filme precisava ser levado para revelação depois de utilizado, e somente então era possível conferir as fotografias. O processo fazia com que registrar aniversários, viagens, reuniões familiares e momentos especiais tivesse uma relação diferente com o tempo.
Hoje, uma pessoa pode produzir dezenas de imagens em poucos minutos e selecionar posteriormente quais deseja guardar. Na fotografia analógica, cada exposição tinha um custo e uma quantidade limitada de poses.
Essa diferença ajuda a explicar por que álbuns antigos continuam tendo valor afetivo. Eles não representam apenas fotografias: registram uma forma de construir memória.
A sexta-feira da locadora
Entre os símbolos mais conhecidos dos anos 1990 estão as videolocadoras. Antes dos serviços de streaming, quem queria assistir a um filme em casa precisava recorrer a uma mídia física. As fitas VHS ocupavam prateleiras nas locadoras, e escolher o título fazia parte do programa.
Havia ainda uma possibilidade frustrante: chegar ao estabelecimento e descobrir que o filme desejado já estava alugado.
Reportagens sobre as antigas locadoras brasileiras registram justamente essa dinâmica. A Folha de S.Paulo descreve as lojas dos anos 1990 e 2000 como espaços com grandes prateleiras de filmes em VHS, além de produtos e materiais promocionais. A Blockbuster, por exemplo, abriu sua primeira loja no Brasil em 1995.
A experiência era diferente da atual. Hoje, a disponibilidade de um filme pode ser consultada em segundos e o conteúdo começa a ser reproduzido imediatamente. Na época, era necessário deslocamento, escolha, pagamento, transporte da fita e devolução dentro do prazo.
A música precisava ser gravada no momento certo
As fitas cassete também fizeram parte da cultura musical daquela época. Gravar músicas do rádio exigia atenção. Quando uma canção começava, era preciso apertar o botão de gravação no momento adequado. O resultado podia incluir a voz do locutor, o início cortado da música ou outros sons captados durante a gravação.
A prática também estimulava a criação de seleções pessoais de músicas. Uma fita podia reunir canções escolhidas pelo próprio ouvinte para uma viagem, uma festa ou simplesmente para escutar em casa.
A lógica é bastante diferente da atual, em que plataformas digitais permitem criar e reorganizar listas de reprodução praticamente de forma instantânea.
O rádio, porém, não desapareceu. Dados recentes do IBGE mostram que ele continua presente em milhões de domicílios brasileiros, embora em proporção menor do que no passado.
O telefone não cabia no bolso
Outro objeto marcante era o telefone fixo. Durante boa parte dos anos 1990, fazer uma ligação significava procurar o aparelho disponível em casa, no trabalho ou em um estabelecimento. Os telefones eram conectados à rede por cabos e não acompanhavam a pessoa pelas ruas.
A realidade das telecomunicações brasileiras começou a mudar de maneira acelerada na segunda metade da década.
A Lei Geral de Telecomunicações, de 1997, reorganizou o setor e criou a Anatel. Em 1998, no início do processo de desestatização, o Brasil tinha aproximadamente 20 milhões de telefones fixos e 5,6 milhões de celulares.
A transformação seria ainda maior nos anos seguintes. Segundo o IBGE, em 2001 apenas 12,6% dos domicílios tinham microcomputador. Em 2004, esse percentual havia chegado a cerca de 16,3%, enquanto a presença de telefone também crescia rapidamente.
A comparação mostra que a revolução digital não aconteceu de uma só vez. Ela foi construída ao longo de anos.
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O computador era um equipamento compartilhado
O computador doméstico também simbolizava uma nova etapa tecnológica. Para muitas famílias brasileiras, ele não era um dispositivo individual como o smartphone atual. O equipamento ficava em um local específico da casa e podia ser utilizado por diferentes pessoas.
Além disso, o acesso à internet ainda era restrito e estava longe da disponibilidade atual. A evolução foi gradual. Dados do IBGE mostram que, em 2004, 12,4% dos domicílios tinham computador conectado à internet. Em 2014, o país já possuía 36,8 milhões de domicílios com acesso à internet, equivalentes a 54,9% do total.
Em 2014 ocorreu uma mudança simbólica: pela primeira vez, o telefone celular ultrapassou o microcomputador como meio de acesso à internet nos domicílios.
A trajetória ajuda a entender a dimensão da transformação que ocorreu em apenas duas décadas.
Ir à casa do amigo sem mandar mensagem
Talvez uma das diferenças mais curiosas esteja na organização dos encontros. Antes dos aplicativos de mensagens, combinar alguma coisa dependia de ligação telefônica, conversa presencial ou planejamento prévio. Quem saía de casa nem sempre conseguia avisar imediatamente que havia mudado de ideia.
Isso não significa que as pessoas necessariamente viviam melhor ou pior. Significa apenas que a tecnologia disponível impunha outros ritmos.
Para crianças e adolescentes, por exemplo, encontrar amigos podia significar simplesmente andar até outra casa, tocar a campainha e perguntar se alguém estava disponível.
A comunicação era menos instantânea porque os recursos eram diferentes.
O que os anos 1990 ensinam sobre Planaltina?
Relembrar os anos 1990 não significa transformar o passado em uma época perfeita. Também não significa afirmar que todos os moradores de Planaltina viveram exatamente as mesmas experiências.
A importância da nostalgia está em outro ponto: reconhecer como objetos aparentemente banais ajudam a contar a história de uma comunidade.
Planaltina possui uma trajetória histórica anterior à construção de Brasília e preserva referências materiais, culturais e religiosas de diferentes períodos. O cotidiano das últimas décadas também faz parte dessa memória.
Uma fotografia guardada em uma gaveta, uma fita cassete, um telefone antigo ou uma lembrança de uma locadora podem parecer pequenos registros. Para quem viveu aquele período, porém, eles podem funcionar como portas para histórias familiares e comunitárias. É justamente aí que a memória cotidiana encontra a história local.
Uma geração mudou de tecnologia — e de hábitos
A passagem dos anos 1990 para o século XXI foi marcada por uma transformação tecnológica profunda.
O filme fotográfico deu espaço à fotografia digital. O VHS foi substituído por outras mídias e, posteriormente, pelo streaming. As fitas cassete perderam espaço para formatos digitais. O telefone fixo deixou de ocupar o centro da comunicação pessoal. O computador deixou de ser necessariamente um equipamento compartilhado e o celular passou a concentrar câmera, telefone, música, internet e diversas outras funções.
Segundo o IBGE, em 2025 o celular estava presente em 97,4% dos domicílios brasileiros, enquanto o telefone fixo convencional aparecia em apenas 5,9%.
A diferença entre esses números resume parte da transformação. Mas a tecnologia não apagou a memória. Pelo contrário: quanto mais rapidamente os hábitos mudam, maior pode ser o interesse em registrar como era o cotidiano antes deles.
Nostalgia também é patrimônio
Preservar a memória não significa guardar apenas monumentos, documentos oficiais ou grandes acontecimentos.
Há também uma história feita de pequenos objetos e gestos: a fita escolhida no rádio, a fotografia revelada depois de dias, a visita à locadora, a ligação feita de um telefone fixo e o encontro marcado sem aplicativo.
Para Planaltina, valorizar essas lembranças pode ampliar a compreensão sobre a própria identidade local. A história de uma cidade também é construída pelas experiências de seus moradores.
Se você viveu os anos 1990, talvez reconheça alguns desses objetos. Se nasceu depois, talvez descubra como atividades simples exigiam mais tempo, planejamento e presença física.
E essa talvez seja a maior curiosidade dessa viagem ao passado: perceber que tecnologias consideradas indispensáveis hoje são, muitas vezes, extremamente recentes.
Você ainda guarda alguma fotografia, fita cassete, aparelho eletrônico ou outro objeto que lembre os anos 1990? Compartilhe esta reportagem com familiares e amigos e conte ao Planaltina1859 qual lembrança daquela época merece ser registrada.






